Publicado por: Joaquim Coelho | 19/10/2008

Momentos de vida

Manuel vai à praia ver se o teu pai já veio do mar. Que aborrecimento não tenho nada para dar de jantar aos miúdos; lamentava-se Dona Rosa. O Tonico por vezes entretinha-se na conversa com mais alguns camaradas da faina na tasca do Zé Bucha antes de rumar a casa.
Agora é que isto está bom, afirmava Dona Rosa, a fábrica do peixe a apitar e eu aqui sem saber o que fazer. Tenho que ir fazer serão e o homem sem chegar.
Mãe não encontro o pai em lado nenhum, já perguntei na praia e na taberna do Zé.
Filho vai comprar fiambre à mercearia do tio Jaime e come, que a mãe tem que ir trabalhar agora. No dia seguinte numa manhã primaveril as mulheres entretinham-se catando os filhos nos degraus de suas casas saboreando o solinho matinal.
Manuel já passou a noite e o teu pai sem dar noticias já não sei o que pensar.
Mãe: O pai deve ter ficado na costa não se preocupe. A pesca deve de estar a dar e o pai está a aproveitar a maré. Vai à capitania para ver se sabes de alguma coisa, isto não me está a agradar. Lá do alto das piteiras Dona Rosa olhava o mar tentando descobrir a barca entrando na doca, eram momentos e tempos de muita amargura e desilusão.
Tenho que ir à praia de lá saberei um pouco mais, isto está a dar comigo em doida.
Cobrindo-se com o seu xaile negro Dona Rosa percorria a marginal da doca observando o horizonte. Falava com este e com aquele algumas novidades obtinha mas eram tudo incertezas. O Chico António afirmava que viu a barca do Tonico lá na costa, foi de longe mas viu. Já é uma esperança e alimento para o espírito lamentava-se a Dona Rosa.
Com o tardar das horas algumas mulheres uniam-se e davam o seu apoio lamentando o que estava a acontecer. Dona Rosa rezava e pedia a todos os santinhos para que o seu homem estivesse vivo. Já era noite escura e o mar encontrava-se com enorme ondulação. O Manuel avistou ao longe um barco, mãe estás a ver aquela luz lá ao fundo? Meu filho está sossegado e calado! Mãe mas olha lá: a luz devagarinho aproximava-se da doca, quem será? É o pai, é o pai, estou a vê-lo. Eram choros de alegria e de muitos beijos, foram dias de amargura e de sofrimento para os homens do mar em que o final foi um final feliz.

Nota: Fotografia retirada de Olhares.

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