Publicado por: Joaquim Coelho | 19/10/2008

Os relatos de meu pai

Uns dias antes do embarque para as terras do bacalhau os pescadores de Setúbal confraternizavam no parque com as suas merendas rumando à capela do Senhor do Bonfim pedindo ajuda e protecção para os homens do mar. Geralmente os verdes eram os mais devotos; pela primeira vez iriam enfrentar o desconhecido. A distância da Terra Nova à Gronelândia é aproximadamente 60 milhas, Santo Jones era o porto utilizado pelos bacalhoeiros para o abastecimento de mercadorias nas terras do Canadá onde o dia era infindável. Nos anos de 1950 os pescadores deslocavam-se ao grémio tratando dos preparativos da viagem com o Sr. Bina, homem de confiança do estado novo. Os pescadores recebiam a roupa de trabalho como empréstimo para a viagem com destino à Gronelândia, aproveitando o momento adequado para adquirir vestuário para as suas mulheres, pois tudo iria ser descontado quando regressassem da campanha. As partidas dos bacalhoeiros faziam-se nos fins do mês de Abril em Belém, reuniam-se os familiares no cais de embarque para a partida, deslocavam-se de Aveiro, de Setúbal, de Fuzeta e de Matosinhos. As mulheres despediam-se com resignação dos seus maridos partindo do Tejo os barcos veleiros. O Milena, o Vimieiro e o Gil Eanes, entre outros. A sua tripulação rondava entre as 63 pessoas, o almoço razoavelmente no navio era às 4 horas da manhã e o jantar às 17 horas dividindo o rancho dos pescadores em duas partes. Os quartos resumiam-se a um espaço ocasional entre a ré e a proa da embarcação. Normalmente os homens cobriam-se com uma manta num sono leve e mal dormido, foram tempos difíceis. Numa viagem de 16 dias com a chegada à Gronelândia os pescadores empatavam os anzóis no amanho dos aparelhos tendo como isca a sardinha arena, a lula e a pescada.
Na zona dos bancos de peixe os botes eram arreados do navio Milena, cada pescador escolhia o seu mar. Cada bote possuía entre 10 a 15 aparelhos para começar a faina. A falta de descanso, as temperaturas negativas, a falta de orientação, o receio do desconhecido, tornaram-se homens frios e destemidos. Recordo-me do Xico Coelho, do Túlio, do Ricardo Patinha e do Joaquim da Bela, eram lobos do mar. O estado do tempo por vezes fazia apitar a sirene e a bandeira preta na haste do navio era hasteada. Deslocavam-se depressa os botes para o Milena, o mau tempo estava a chegar. O Xico Coelho recordava com o amigo Túlio de uma passagem antiga.
– Túlio, não te lembras daquela vez que tive de saltar para o bote para ir buscar o charuto (o cão), quando saiu borda fora?! Aqueles gajos foram uns merdas por eles o animal tinha morrido. O capitão do Milena lá do cimo da ponte olhava com indignação os botes a chegar, resmungava por tudo e por nada, pois todo o bacalhau era pouco. Os botes eram içados para dentro do Milena no fim da pescaria. O capitão do navio avaliava o pescado a olho; era uma questão de autoridade e competência. Os homens comiam qualquer alimento antes de rumarem para o porão do navio para salgar e escalar o peixe. O navio Gil Eanes fazia incursões pela Terra Nova e Gronelândia, era o barco de apoio da frota pesqueira servindo de hospital e de prisão, também de apoio ao abastecimento de outros navios. Se a pesca do bacalhau corresse normalmente os barcos regressavam a Ílhavo bem depressa, se a pescaria fosse fraca os barcos voltariam em princípios de Agosto. Aqui deixo na minha escrita a estima e consideração a todos os pescadores da pesca do bacalhau, àqueles que partiram desta vida pela ferocidade do mar, àqueles que sofreram as amarguras de uma profissão difícil, a todos os incógnitos pescadores que fizeram da sua vida de luta um país respeitado por todos os cantos do mundo. Bem hajam os pescadores do bacalhau!

Nota: Fotografia retirada do site Museu de Marinha.

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Responses

  1. Tive oportunidade de estar a bordo de um bacalhoeiro no estuário do Tejo em 1952, quando uns amigos dos meus pais do sítio da Nazaré iam partir para mais uma campanha.
    Obrigado, pois o seu artigo permetiu-me recordar alguns bons momentos da minha juventude.

  2. Desde já agradeço o comentário e ter gostado do artigo.
    Espero brevemente realizar mais textos deste género.

  3. Caro Joaquim,

    É importante que publique também o seu tributo. Aqueles homens que são ainda hoje nossos pais ou avós, merecem o maior dos tributos, pois a pesca do bacalhau foi muito mais do que somente “ir à pesca”.
    Que o tempo futuro os engrandeça sempre mais e mais… .


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